terça-feira, agosto 31, 2010

Sobre variações do mesmo tema

Quando o Transtorno Dissociativo de Identidade deixa de ser uma doença para se tornar um recurso possível para o enfrentamento da realidade? Quando quem somos não dá mais conta de sustentar nossa sobrevivência. No fim das contas, todos nós carregamos personagens que se manifestam conforme a necessidade. Isso é a fluidez da(s) identidade(s). Isso é experimentar. Isso é ser outra pessoa mais interessante pelo menos uma vez na vida. Pra se ver como a biografia de uma pessoa pode ser mais movimentada e povoada que um [] Estado [de espírito/etílico].


ALTEREGO MANIFESTADO COM UMA DOSE DE CACHAÇA
Paolita Dorantes é vivaz, irônica e culta demais para uma menina da sua idade. É filha de exilados políticos, nasceu no Chile, mas mora em Cuba há 8 anos. Tem 10 anos de idade e 100 de experiência. Tem o perfil de típica garota prodígio, a futura mulher à frente de seu tempo. É subversiva, tem um humor ácido, uma sagacidade acima do normal e seria um modelo de luxo comparado á Maisa do SBT. Seu código de honra ainda está em formação, mesmo assim, não admite qualquer lei ou regra que a coloque em situações de submissão e opressão. Certamente será a cidadã que dará uma nova “roupagem” ao movimento feminista, fazendo deste um movimento revolucionário por lutar pelos direitos da mulher sem precisar queimar roupa íntima em praça pública (só as de cor bege porque são muito demodé) ou descer do salto. Suas referências socialistas são flexíveis e modernas e a fazem crer que certas lutas pelas mulheres podem ter um toque feminino e consciência fashion, que a resposta não está nos extremos, pois a história também se realiza nos meios termos e que mulher nenhuma deve ser oprimida por querer se sentir bonita, já que a fórmula beleza+inteligência é possível. Não gosta de desenhos animados, pois acredita que isso seja uma forma de alienação promovida pela mídia, porém, abre uma exceção para o Charlie Brown. Prefere ver documentários ou ler porque não se apreende cultura por osmose. Ainda se encontra em fase de latência e nunca se interessou por nenhum homem depois de Che. Em sua lápide estará escrito: “Endurecer sin perder la ternura es imposible”.

O EGO TITULAR, ESPREMIDO ENTRE AS DUAS VIDAS QUE DESEJARIA TER:
Janna Érica tem alma cinza e chuvosa. Quase todos os dias fuça os escombros da alma pra resgatar sua autoestima. Tem 27 anos a caminho dos 18. É menos interessante e mais imatura do que gostaria de ser. É uma sobrevivente, na verdade. Ainda sustenta suas crenças amarradas a um fio tênue de esperança e defesas egóicas. Dificilmente se abre a relacionamentos possíveis, sempre escolhe as pessoas erradas e nunca se permite fazer qualquer coisa que critique com veemência, como se submeter às regras alienadas de um namoro não saudável, só pra não ferir sua teimosia. Gosta de homens gentis, articulados e bem humorados. Odeia intelectuaizinhos burgueses, mas já nutriu uma paixão platônica quase enlouquecedora por um. Já feriu seu código de honra três vezes só pra não ficar sozinha. Possui uma Erotomania crônica que se manifesta a cada dez anos, quando se apaixona ensandecidamente por personagens ou por figuras ilustres do universo artístico e redes sociais. Traz consigo uma carência obsessiva e sufocadora e senso crítico aguçado que beira à insatisfação crônica. Pensa que sabe escrever. Na verdade, investe em algumas crenças mais ou menos funcionais pra não sucumbir ao marasmo e desconforto do mundo. Gosta muito de música e cinema, mas não entende nada do assunto, sendo de seu interesse qualquer citação encontrada numa cifra ou diálogo que sirva de referência pra vida. Em sua lápide estará escrito: “A que nunca deixou de acreditar na Grande Abóbora”

ALTEREGO MANIFESTADO DEPOIS DE UMA CAIXA DE CERVEJA:
Juanita Cambalacho tem alma colorida, com doses de exagero, sal e pimenta. É mais atraente do que qualquer mulher sonharia em ser. Usa toques de sarcasmo apenas para temperar o destempero e porque isso a mantém jovem. É sedutora por convicção e autoestima elevada. Não tem idade definida, pois acredita que o mistério seja o segredo do seu charme e porque isso a impossibilitaria de “pegar” meninos mais novos sem ser julgada ou acusada de pedofilia. Gosta de homens inteligentes, poderosos e saudáveis mentalmente, pois não gosta de perder tempo com neuroses desnecessárias. Não possui código de honra algum, pois acredita que toda e qualquer regra restrinja sua liberdade no mundo. Músicas que não saem da sua cabeça: bolero e todas as músicas da Célia Cruz. Geralmente, não se apaixona. Já teve seu coração partido uma vez, mas não experimentou outras desilusões antes que ela mesma partisse outros corações pra saber qual a sensação que fica. Não desperdiça tempo com dores da alma, ressentimentos ou afetos mal resolvidos. Não sonha em casar e ser mãe, pois seu coração é do mundo, a quem é fiel até a morte. Suas convicções podem justificar qualquer atitude tomada como egoísta e perversa. Sua forma de defender sua visão de mundo seduz só pela firmeza e autenticidade. Lida com os infortúnios sem levar um mol de amargura no coração, pois esbanja doçura até em seus atos mais absurdos. Em sua lápide estará escrito: “Azucaaaaaaaaaar”.

segunda-feira, agosto 09, 2010

Dia de fúria.

Olha, é o seguinte. Eu não gosto mesmo de ficar de bate papo em ônibus coletivo. E também não faço consulta nestes termos. Também não sei pra quê eu fui dizer que sou psicóloga. Eu sempre planejo dizer que sou comissária de bordo ou stripper, mas aí mudo de idéia e resolvo dizer a verdade. Por que pareço cansada e triste? Porque estou! E ainda por cima com fome, desamparada e menstruada. Eu tenho raiva de gente feliz, colorida e toda animada ao meio dia, quando meu estresse já atingiu níveis estratosféricos por passar horas apagando incêndios e descasacando abacaxis. E eu não sou obrigada a sentir culpa por não corresponder à mesma disposição, energia e alegria de viver. Só que eu já tô sentindo culpa, porque é uma coisa inevitável no meu cotidiano. Hoje eu tô um híbrido de bruxa da Branca de Neve, Paola Bracho, Soraya Montenegro e Carrie Bradshaw virada na Tara. E nada mais tenho a declarar.

sexta-feira, julho 23, 2010

Reflexões filosóficas sobre a síndrome do dever cumprido!


"Ora bolas, não me amole com esse papo de emprego. Não está vendo? Não estou nessa. O que eu quero? Sossego. Eu quero sossego"(TIM MAIA).

Depois de vários meses de trabalho (manual e intelectual) escravo, de cansaço, esgotamento físico e mental, de preocupações sem fim não há absolutamente nada para fazer. Não é preciso acordar cedo para qualquer compromisso que seja e, assim, também não é mais preciso dormir cedo e perder tudo o que acontece depois da meia noite só pra não acordar com cara de alcóolatra e levantar suspeitas no trabalho. Enfim, isso é a paz que as férias trazem. Paz que eu me desacostumei a sentir porque eu não consigo entender essa sensação de estranhamento. Se consegui minha alforria temporária por que eu ainda sinto culpa por acordar às 11:30? Que expectativa é essa por algum compromisso velado, obscuro, que vai me pegar de surpresa assim que eu relaxar de verdade [minha paranóia diária]? Os sonhos recorrentes sobre retorno ao trabalho é sintoma de estresse pós traumático [as chamadas revivescências]? Então, é isso: eu me alimento das minhas preocupações? Eu me acostumei à rotina maçante da vida adulta? Ou essa falta é reflexo da minha condição de histérica, já que sem nada pra me preocupar perderei meu papel de vítima no mundo? Como poderei me lamentar pelas noites mal dormidas, pela má alimentação, pelos trabalhos eternos do monstrado [trocadilho infame pra mestrado]? Se é mesmo a histeria que me sustenta, quer dizer que sem problemas pra lamentar eu perco a identidade? Logo eu, que nunca tive problemas com o ócio não estou sabendo lidar com ele? Será que eu me transformei em um pokemón evoluído? Será que minha procrastinação é fruto da minha dinâmica neurótica ou só um jeito de provar que eu consigo sim fazer um artigo de 18 laudas em dois dias [a qualidade do mesmo não está em questão]? E o que significa este texto? Desorientação pelo ócio mal administrado, abstinência da rotina brutal da vida adulta, culpa por assumir que gosto de ser preguiçosa ou resultado da ingestão exagerada de chá de noz moscada? Resposta: todas as alternativas anteriores. 

sábado, junho 12, 2010

Sobre as coisas simples...

"But your lonely nights has just begun when you love someone".
Bryan Adams

Eu queria alguém que me fizesse rir e alguém que risse dos meus trocadilhos bobos só pra não me fazer parecer uma demente sem graça e só porque rir junto é muito bom. Eu queria alguém que não se incomodasse com minha autonomia, meus amigos, minha família e que me amasse com respeito, não com loucura, porque loucura supõe alienação e eu não quero um amor movido sempre pelo inconsciente. Eu queria um compromisso leve, sereno, sem muitos arroubos, sem trilha sonora obrigatória, só se for o caso mesmo. Eu quero um romance leve mas não sem sal, porque sem sal ja basta a minha dieta. E além do mais a etiqueta prega que menos é mais. Eu queria a serenidade não pelo medo do compromisso, mas porque me incomoda tudo que parece forçado e achar que não se consegue viver sem alguém, apesar de ser compreensível pra lógica de uns, pra mim é forçado. Eu queria poder contar com mais alguém além dos amores que já tenho e que me sustentaram a vida toda porque chegará um dia em que eles se voltarão pros seus próprios projetos. Eu queria às vezes ter um braço forte e uma mão amiga (seguindo o lema do exército brasileiro), experienciar aquela cósega na garganta que só acontece quando eu gosto muito de alguém, de uma coisa, de uma sensação. Eu queria reciprocidade, pelo menos uma vez na vida. Era só isso o que eu queria...

sexta-feira, junho 11, 2010

Sobre o destempero

Depois de tanta frustração, depois de uma sucessão de registros equivocados, desistiram. Largaram-me só, como um cão sem dono, num lugar onde eu nunca soube de fato se foi mesmo habitado. Eles não foram fiéis, não tiverem paciência quando a inspiração viajou pra Guatemala, sem aviso prévio, em resposta à minha negligência e não voltou mais. Nem esperaram pra ver se ainda tinha uma gota de bom humor, de ironia, de exagero, de seja lá o que for de forma interessantemente articulada em pelo menos um trecho desgarrado em meio a essas palavras sem sal e destemperadas. A culpa é minha? [Sempre é]. Por que será que a Guatemala é mais interessante que meu cérebro? [porque pelo menos lá há algo de interessante pra conhecer]. Por que eu to parecendo meio esquizofrênica? [porque talvez seja mesmo]. Eles desistiram. Com razão. Eles são mais espertos que a maioria. Mas e se eu dissesse que talvez tenha jeito? Eles mudariam de idéia?

sábado, maio 29, 2010

FABULOSO. PONTO DE EXCLAMAÇÃO!


"É difícil encontrar uma pessoa que a aceite como é, com seus defeitos e qualidades. Felizmente eu tive a sorte de econtrar três delas [Charlotte, Samantha e Miranda]"
CARRIE BRADSHAW - 3ª TEMPORADA DE SEX AND THE CITY


Os seriados são fontes de diversão, de estímulo para reflexão sobre os problemas não-fictícios do dia-a-dia, de identificação e, claro, de divergências e competição. As minhas preferências por seriados atendem à minha própria lógica e, nesse caso, não importa muito a opinião dos outros, da crítica e nem há a pretensão de converter quem quer que seja às minhas ideologias. É tudo uma questão de gosto pessoal, é definitivamente, uma questão minha (e de algumas pessoas que consensualmente compartilham da mesma opinião).
Sex and the city é o seriado que trouxe pra pauta das discussões cotidianas temas muito mais abrangentes que sexo e moda. E quem fala aqui não é uma representante da crítica especializada, é uma pessoa comum, leiga do ponto de vista analítico e técnico, cuja opinião despretensiosa se fundamenta apenas na sua história de vida e de identificações. Pra mim Sex and the city é simplesmente fabuloso. Ponto de exclamação!
Sexo está (ou pode estar) presente em qualquer relacionamento (dito) saudável, portanto, o ponto não é o fetichismo no sexo em si, mas a maneira como ele é visto nos relacionamentos. E esta é uma série que fala, sobretudo, de relacionamentos (todos eles). Sexo pode ser um tema, que pelo menos na cultura nordestina (muito diferente da nova iorquina), ainda é tabu e pode mexer com os conteúdos de muita gente. Mas esse incômodo é compreensível.
O que eu gosto em SATC é o modo como as personagens encaram esses problemas comuns, com humor, glamour e humanidade. Como eu gosto da humanidade que há em Carrie, Miranda, Charlotte e Samantha, de como elas mostram que qualquer mulher pode trazer consigo tudo de melhor e de pior sem se despersonalizar. Porque não há em Carrie só neuroses e (aparentes) futilidades, há também inteligência, sagacidade e dedicação a suas amigas. Não há em Miranda só ironia e ceticismo, há também disponibilidade para mudança e para o amor. Samantha não vive só para sexo porque eu também vejo nela determinação, força e solidariedade e Charlotte não é feita só de puritanismo, mas também de sensibilidade e fé no amor e nas pessoas.
Interesso-me pela história dessas quatro mulheres pela diversão que cada episodio proporciona, pelas associações que cabem na minha própria história pra modificar pontos de vista e posturas, pelo elo que une minhas amigas a mim, nosso ponto de interseção, nossa fonte de assunto e de analogias a acontecimentos que estão bem aqui, tão distantes de NY, mas que combinam com a nossa realidade e caem tão bem quanto um Dior ou um Manolo Blahnik. Porque essas mulheres nos fazem pensar em nossos investimentos afetivos (de toda espécie) e nos ajudam a ver com crítica a maneira como nos alienamos a alguns amores em negligência de outros, nos mostra a possibilidade do meio termo, do desenvolvimento da tolerância e da compreensão mesmo que em algum momento haja julgamento, insatisfação ou cobrança. A amizade mostrada neste seriado é algo que me comove porque fala de amor na medida certa.
Esse seriado trouxe a proposta de posicionar a mulher no mundo de uma outra forma (não só a mulher solteira que quer casar e ter filhos, mas também a mulher que não deseja casamento e família e não vê problema em sua solteirice, a mulher que não vive em função de um homem etc), desnaturalizou os conceitos sobre amor e sexo, sobre afeto e afetividade e até sobre gênero. Ressignificou a angustia da espera sofrida pela alma gêmea, casamentos e homens perfeitos, tratou de crises de identidade e de idade com humor e sensibilidade. Enfim, conflitos humanos que revejo sem cessar e sem cansar pra continuar instigando minhas próprias reflexões, sem frases de impacto, sem chegar a conclusões que fazem você chorar deprimida. SATC não usa esse tipo de apelo, ele desperta sentimentos e constatações de outra ordem, da ordem do comum, mas igualmente tocante.
Repito: é dessa humanidade dos personagens em SATC que eu gosto. Eu gosto de pensar que os problemas que se desenvolvem nessa história fictícia podem acontecer no meu trabalho, na minha rua, no meu mundo e não em lugares descontextualizados como centros cirúrgicos, cenários policiais ou sobrenaturais ou em ilhas paradisíacas do Pacífico. Eu gosto da forma despretensiosa de falar do cotidiano feminino sem apelar pra discurso piegas de filosofia barata. Sex and the city não trata a vida de forma exageradamente artificial nem tem a presunção de dar grandes  lições de vida e isso eu acho digno!



segunda-feira, abril 26, 2010

Sobre invenções e Gestalts abertas





"Lembra de mim? Você me enlouquece. A cabeça diz que é besteira mas o coração não esquece"

 O CASTELO DOS DESTINOS CRUZADOS - ENGENHEIROS DO HAWAII

"Quem inventou você fui eu, porém,eu tenho que desinventar, pro bem. Preciso me livrar de tudo o que é você. Um espaço pra criar um outro alguém"
REINVENTO - GRAM






Ontem à noite eu sonhei com você de novo e de novo meu coração se inquietou por causa dessa gestalt que não fecha, por causa desse assunto ainda não resolvido! O que de fato me prende a você? Se você nem é a pessoa que eu inventei. Porque eu me convenci de que é você, meu namorado imaginário, a pessoa que vai me curar deste ceticismo crônico sobre a existência desse amor que nunca chegou pra mim? Porque, na minha cabeça, é justamente você quem vai me mostrar o quanto esse sentimento que todo mundo sabe o que é, e eu não, pode valer a pena? Eu preciso me libertar de você, do seu fantasma rondando minha vida onírica, dessa falta que eu sinto da vida que eu nunca experimentei ao seu lado. Eu quero, de coração, que você e sua vida inventada [por mim] sumam da minha memória. A sua perfeição e sua rejeição velada não me fazem bem. Eu quero que você suma! Talvez, escrevendo, eu consiga elaborar minha catarse, te dizer o que você nunca vai escutar, te mostrar o quanto de amor honesto e consciente você está perdendo por não estar comigo. E te dizer que eu sou melhor do que o que você tem disponível, não porque realmente acredito nisso, mas porque quero que você preste atenção em mim! Eu preciso descobrir que você não é tão inteligente quanto eu imagino, tão engraçado, tão charmoso quanto eu percebo, que você não é esse sujeito bonachão, amado e admirado por todos, o tipo de cara que provoca suspiros adolescentes. Eu quero me certificar de que você não é esse cara e que, no fundo, você não passa do tipo de intelectualzinho burguês que eu detesto. Que você é fruto da minha imaginação fértil e nada mais. Guarde bem essas palavras não ditas porque hoje estou dando o primeiro passo para a minha libertação. Tomara que amanha eu não sonhe mais com você, nem invente mais ninguém pra suprir minha falta de habilidade pra viver.

domingo, março 21, 2010

Sobre opressão e o "sexo frágil"

"Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher. Sou minha mãe, minha filha, minha irmã, minha menina. Mas sou minha, só minha e não de quem quiser. Sou Deus. Tua deusa, meu amor."
1º de JULHO - LEGIÃO URBANA


"Mulher é um bicho complicado." Foi com base nesta memorável representação sobre as mulheres proferida por um nobre cavalheiro, conhecido meu,  em pleno mès de comemoração de seu dia que pensei em algumas considerações a respeito das distinções históricas entre machos e fêmeas. Com certeza não há nada de novo nestes pensamentos, mas há em mim uma necessidade crescente de reflexão sobre algumas posturas, para, quem sabe, o esboço de um movimento timidamente revolucionário.

Pois bem. Ainda não se superou o conflito que vem da seguinte dúvida: somos mesmo complicadas, um saco de hormônios desregulados ou são nossos estimados machos tão preguiçosos a ponto de nem se darem ao trabalho de se comprometer e compreender o que acontece além do que a visão em túnel lhes permite enxergar? De quem será a culpa (ou responsabilidade) pela falha comunicacional entre os habitantes de Marte e de Vênus?

O fato é que somos seres socialmente construídos e a nossa cultura (sobretudo a piauiense) promove homens acomodados e mulheres carentes. Neste caso surge uma insatisfação e uma esperança. Insatisfação por estarmos presos a uma engrenagem cruel com a categoria feminina, já que o ônus e a culpa estão sempre pesando na nossa bagagem emocional. Esperança por saber que ainda se pode romper com certos padrões, mesmo que isso soe como uma ideologia barata e ingênua. Infelizmente, no fim das contas, se avaliarmos bem certas situações do cotidiano perceberemos (ou constataremos) que a corda sempre arrebenta do lado do "sexo frágil."

Não é incomum se recorrer ao velho clichê psicanalítico (falando bem grosseiramente) pra justificar as perversões, neuroses e psicoses nossas de cada dia. Quando tudo dá errado ou quando sofremos de qualquer transtorno a culpa é da mãe, que à princípio é mulher (as possibilidades de papeis sociais são imensas). Falando em clichê, recorreremos às velhas comparações. Se um homem é bem sucedido, rico e solteiro aos 40 anos é um bom partido, se é a mulher que possui essas qualidades é mal amada ou perdeu muito tempo querendo ser um homem. Papai e mamãe ensinam à menina a ser doce, delicada, recatada e servil e ao menino a ser forte, viril, determinado e firme. Não é à toa que o encontro entre essas duas criaturas é controverso desde o início, já que são estimulados a terem posturas quase antangônicas, principalmente no que diz respeito ao embate Recato X Virilidade. Porém, se aliado ao recato o fator subserviência estiver bem internalizado a força e a virilidade vencem de 10 X 0.

Faz parte dos direitos e deveres da mulher seduzir, conquistar e manter o relacionamento. Da mesma forma que a responsabilidade pelo fracasso de uma relação é inevitavelmente da mulher, seja porque ela é uma chata-carente, uma doida-displicente ou um coração de pedra incapaz de se comprometer. É atribuição da mulher apimentar a relação, descobrir coisas novas e trazer fantasia á realidade e é também ela que na maioria das vezes cede sexual e emocionalmente. E a sensação que fica é que é preciso ser a princesa perfeita pra conquistar qualquer sapo e ao que parece há mais princesas que sapos nesta lagoa, o que valoriza a cotação deles (a maldita lei da oferta e da procura) oferecendo-lhes as melhores possibilidades e nos deixando quase sem escolha.

É claro que todos estes argumentos são feitos de forma bem generalizada e não se trata de defender a supremacia do feminino sobre o masculino, mas como prega uma grande amiga, é uma questão de igualdade de direitos. Trata-se de amadurecer pensamentos sobre as posturas masculinas e femininas pra saber como negociar, como se libertar da opressão de uma vida inteira sem precisar partir pra ignorância ou queimar roupas íntimas em praça pública, pra refletir sobre a educação de nossos filhos, pra tentar mudar o mínimo, pra treinar a empatia e saber dialogar com nossos ficantes, namorados e maridos, pra conservarmos nossa dignidade nos atos mais simples. Definitivamente, não se trata de quem é frágil ou forte, é uma questão de entender e enxergar as multiplicidades.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Sobre culpa, autopurgação e maldições amorosas


Certa vez, na circunstância dramática de um término de namoro, um ex enfurecido e exausto me disse: "Sabe o que vai acontecer? O meu barco vai continuar navegando enquanto o seu afundar!" Naquela hora eu só achei que era uma ameaça meio brega, meio ressentida, mas essas palavrinhas me atormentam há muito tempo e é inevitável pensar nelas quando tudo dá errado nos meus relacionamentos. A referência ao Titanic foi uma maldição, uma profecia ou só uma maneira zangada e metafórica de dizer que minhas crenças rígidas e intolerância ainda renderiam sérios problemas de socialização com o sexo oposto?

Sem respostas para as minhas dúvidas, o certo é que o barco dele já deve estar chegando na Jamaica, enquanto o meu está fadado a um naufrágio sem precedentes e eu nem sei nadar. Trágico!

Será que quando os ressentimentos de nossos amores passados persistem as maldições e desejos de vingança contra sua pessoa ganham força descomunal? Como um combo em um jogo de video game, as energias negativas de todos eles se acumulam pra perseguí-la por toda a vida? Será esse o motivo de eu estar condenada a viver 50 anos em inferno astral, trancada num calabouço afetivo, como os personagens da Caverna do Dragão, privados por um Vingador de sua liberdade? Ou é tudo responsabilidade minha?

Talvez eu descubra em terapia e talvez confirme que enquanto minha "canoa furada" inunda minhas possibilidades, a culpa me atormentará até o fim, porque é esse vermezinho que me constitui e toma conta da minha alma cheia de pequenos pecados. Culpa por achar que já magoei alguém e mereço arder no fogo do inferno por causa disso. Culpa por não ter dado as chances necessárias pra transformar o outro numa pessoa desejável. Culpa por ser teimosa e burra. E se eu pensar na culpa que tenho até por existir, concluo que a responsabilidade é mesmo toda minha. À bem da verdade, culpa é uma coisinha que as mães, primeiramente e, depois os nossos homens, sabem incutir perfeitamente em nossas cabeças neuróticas.

Mas nem tudo está perdido, pois enquanto houver um copo descartável (pra livrar-nos da água excedente do nosso navio naufragado) e expectativas, haverá luta! E se nada der certo, ainda pode-se aprender a nadar. Afinal, de uma forma ou de outra, todos conseguimos reunir recursos pra sobrevivermos aos nossos tsunamis pessoais.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Sobre como ser uma top model esnobe e desejável!

"Eu sou a melhor! Eu sou e sei que sou. No quê, não vem ao caso...é uma coisa anterior!"
EU SOU A MELHOR, MARISA ORTH

 

               Meus caros, acho que fiz a grande descoberta de uma vida inteira! Existe uma diva glamurosa e esnobe dentro de cada alma feminina. E a fórmula é simples: um fotógrafo competente +um iluminador impecável + maquiagem perfeita + Picasa = “super top model esnobe mais desejável que a Madonna posso tudo e tenho todos sou linda milionária e te desprezo”.

               É só deixar fluir a soberba oculta e latente que pulsa dentro de cada ser humano e os resultados podem arrancar lágrimas de satisfação de qualquer fêmea por ver sua auto-estima sendo resgatada dos escombros.

                Sabe aquele olhar de desprezo agregado ao semblante blasé? Só as super top models sabem fazer com perfeição e agora eu, não porque me sobra auto-confiança e sedução, mas porque sou míope e preciso fazer grandes esforços para enxergar e manter o foco. Mas não importam os meios, os fins são o que dão o mérito da coisa toda.

                Se a auto-propaganda é enganosa? Pouco interessa. Uma foto perfeita vale mais que mil seres sem graça e sem maquiagem da vida real e podem permanecer pela eternidade, enquanto sua melhor produção, aliada a seu senso de humor e charme pode durar pouco mais de três horas.  De qualquer forma, é uma bela alternativa pro seu cartão de visitas.  Pra saber se é real ou ideal, é preciso pagar pra ver e o cachê por tamanha exposição é alto. Afinal, top models não são ricas à toa!

                Além do mais, se a isca for boa e a mulher inteligente e simpática o suficiente pra driblar as possíveis decepções, não haverá grandes riscos de se recorrer ao Código de Defesa do Consumidor. E eu ainda acredito que haja homens espertos o suficiente pra entender que sem uma boa maquiagem e um bom programa de retoques essas modelos de revista são tão verdadeiras quanto promessa de político, por isso, um marketing pessoal de vez em quando não faz mal a ninguém e quem sabe possa render outras possibilidades além de dinheiro, fama e glamour.

domingo, fevereiro 07, 2010

Quando o amor acontece



“Oh, my friend love is the end.”
(LOVE IS THE END – KEANE)



A busca pelo grande amor é um inevitável clichê não só nestes escritos, mas também nas conversas cotidianas, nos seriados e filmes preferidos e, obviamente, na imaginação de 9 entre 10 mulheres (ainda duvido se é isso mesmo que a maioria dos homens espera, portanto, falo somente por minha categoria). Não só porque somos socialmente e emocionalmente forçados a termos um par para não parecermos rejeitados pela humanidade, mas porque o amparo e o conforto de ter um parceiro é o objetivo final dessa busca, por carência inata e/ou construída ou por medo do ultraje afetivo de morrer solteira e “Tia”.
Pois bem, se amar e ser amado é a finalidade de todo sujeito carente, me pergunto: quantos têm sorte nesta saga? Ou melhor: quantos conseguem se permitir ao amor, sem defesas, traumas ou medo? Quantos conseguem ir à luta mesmo quando se ferir mortalmente é a probabilidade mais cogitada? Ou quantos abrem mão de sua inflexibilidade pra tentar apreender o que há de melhor no outro, mesmo quando isso parece mais nebuloso do que fim de filme de suspense? Quantos homens conseguem oferecer conforto e segurança a suas mulheres sem se sentirem ameaçados em sua virilidade e quantas mulheres conseguem superar a histeria e encontrar o meio termo entre a submissão desesperada e a auto-suficiência narcísica? E quantas pessoas, leigas ou especialistas, conseguem responder a estes questionamentos serenamente sem estarem envolvidos até o pescoço num relacionamento quase sempre problemático ou fugindo dele como o diabo da cruz?
Pra ser bem sucedido nessa busca é necessário baixar a guarda e se entregar, isso é certo. Ideologias de libertação feminina dos grilhões impostos (simbólica e literalmente) pelos machos perversos chocam e são sempre mal interpretadas (e é claro que nem todos os machos são perversos). O saldo disso são anos de rejeição e embotamento afetivo, porque em matéria de amor, homens e mulheres falam dialetos diferentes, diferença que pode causar traumas irrecuperáveis. O remédio é saber quando devemos ceder e quando devemos recuar, porque embora meu ceticismo ainda me cegue, eu sei e reconheço que alguns homens até arriscam recorrer a um dicionário pra nos entender e satisfazer nossos desejos neuróticos. Sim, estes tesouros ainda existem, mas com certeza nunca estiveram comigo. Reconheço também que um relacionamento é construído por duas pessoas (é o esperado) e ambos os seres implicados têm responsabilidade no êxito e no fracasso de uma união, por isso abrir mão de alguém que não atende a todos os seus requisitos é egoísta e presunçoso. No fim, ninguém tem necessariamente culpa de não se encaixar nos padrões afetivos uns dos outros, as experiências só precisam acontecer.
É necessário conhecer todo tipo de gente e reconhecer que é provável sofrer muitas vezes e que isso não é impedimento para apostar em cada possibilidade. Fugir disso e esperar que a pessoa ideal surja sem nenhum esforço na primeira tentativa é um recurso acomodado e patológico, pois não dá a chance de experimentar. E ter consciência disso tudo como se tivesse acabado de inventar a roda não adianta nada se não for colocado em prática. Definitivamente, não passo de uma demagoga, por isso escrevo o que penso e não consigo praticar. E não se pode mesmo saber quando termina a busca. Geralmente acontece quando encontramos o que queríamos (ou quase isso) ou quando cansamos do ritual e da espera. Mas buscar ainda é preciso e é inevitável mesmo pros seres humanos mais incrédulos. Eu acredito no amor e também o desejo, porque o vejo muito perto e sei que é possível, não com respeito a mim, mas às pessoas à minha volta e isso, com certeza, me faz continuar esperando.

segunda-feira, novembro 23, 2009

Sobre desastres afetivos e superação


"Queria ser doutor pra te salvar com vida, mas no seu tempo eu sou horário de visita. Você entende só o que lhe convém. Não sou complicado entender." MELHOR ASSIM: GRAM

"Te dei comida, velei teu sono, fui teu amigo, te levei comigo e me diz: pra mim, o que é que ficou? [...]Acho que te amava. Agora, acho que te odeio. São tudo pequenas coisas e tudo deve passar" MENINOS E MENINAS: LEGIÃO URBANA

Já se comentou em outra ocasião sobre os perigos que o amor oferece e sobre como a gente pode se quebrar todo se resolver entrar de cabeça e sem cautela, aliás, cautela é uma palavra em desusuo no dicionário amoroso, já que em relacionamentos não há o que prever ou prevenir sem cair no equívovo de tornar tudo calculado, contabilizado e racionalizado. Quando baixamos a guarda e nos tornamos vulneráveis ficamos expostos a desastres cruéis, mas sobrevivemos. Como aquela personagem da série Heroes da qual não me recordo o nome agora, limpamos o sangue, colocamos todos os ossos em seus devidos lugares, ajeitamos o cabelo e voltamos pra guerra. É que no amor, somos mesmo Highlanders, porque precisamos ser, porque correr risco faz parte de tudo o que a gente vivenciar e supõe também fracassos e decepções.

Eu tenho minhas armaduras super-poderosas, infalíveis, na maioria das vezes, no papel de me deixar ilesa. E tem pra todos os estilos, prateadas, douradas, reluzentes, blindadas até o elmo [e a alma] mas que, por outro lado, não são nada práticas, pesam muito na bagagem emocional e estão pelo menos uns 700 anos em atraso com o mundo fashion. Pros meus amigos eu prefiro um figurino mais leve para o amor, talvez não tão seguro, mas com certeza mais bonito, atraente e estimulante do ponto de vista afetivo e da saúde mental.

Porque apesar de toda resistência sei que amar traz contradições necessárias pra nossas experiências, sei que dar afeto às pessoas certas e/ou erradas nos faz sentir mais vivos e felizes na maior parte do tempo. Porque sei que temos que enfrentar inclusive a contradição de amar pessoas também contraditórias mesmo que não exista nenhum motivo coerente pra isso e talvez coerência não caiba definitivamente neste espaço. Porque sei que às vezes investimos demais em negócios arriscados, potencialmente fracassados e mesmo assim preferimos acreditar que é possível. Porque no mundo capitalista, até nas questões afetivas, investimos apenas diante de retorno garantido, no mínimo na mesma quantidade e proporção, mas nunca menos do que precisamos e achamos justo. Porque temos a plena consciência de quando amamos alguém que não está preparado pra amar na medida em que desejamos, que não tem estrutura pra sustentar uma relação, assumir compromissos e entregas, dar suporte aos sentimentos que fluem em mão dupla e superar os próprios conflitos e, ainda assim, amamos simplesmente porque acreditamos até o fim que podemos mudar qualquer situação só com bem querer. E é por isso que também achamos justo quando damos tudo até pra quem não nos merece [apesar de não saber qual o parâmetro pra merecimento].

Porque sei que sempre achamos que aquele pequeno defeito ou aquelas pequenas incoerências que se repetem tantas vezes até nos cegar durante o cotidiano são muito menores do que o que sentimos e quando sentimos muito achamos que podemos o impossível. E é por causa disso que dói tanto quando nos traem e refiro-me a bem mais que dividir afeto com outras pessoas além de você, falar desnecessariamente de ex-amores, de amparar a  auto-estima às custas dos desejos de outros esfregados na sua cara e às custas de sua carência afetiva por insegurança forjada e estimulada. Refiro-me à traição de sentimento e confiança, à incapacidade de defender com firmeza desculpas fajutas pra justificar falta de consideração e respeito.

E não se trata de reconhecer tudo isso pra se lamentar depois [lamentações só são recomendadas durante a fase de luto, depois não.] Não se trata de usar tudo isso como justificativa pra acomodação afetiva e auto-proteção. Também não se trata de usar estes argumentos pra provar que não vale a pena estar apaixonado, cometer burrices imperdoáveis, mas também se sentir bem por estar amparado e comprometido. Vai chegar um momento em que não importará mais se não te trataram bem, se te preteriram, se subvalorizaram seu afeto ou sequer entenderam ou ouviram o que você tinha pra dizer. Isso acontece!

Tudo bem se você foi um amor de ocasião, adaptado ao estado de humor ou ao dia da semana mais coveniente. E se você foi só a pessoa da quarta-feira, tanto faz! O que interessa é que é justamente nessa hora que vemos que podemos contar com as pessoas realmente significativas em nossas vidas, em qualquer circunstância e que elas nos oferecerão ombros e colo e daraõ conselhos, muitas vezes, impraticáveis, mas só porque nos cuidam e nos compreendem mesmo em estágio avançado de demência. É bem nessa hora que podemos regredir aos 5 anos de idade sem parecermos infantis e que podemos sentir pena de nós mesmos, pois auto-comiseração é mais do que merecida neste momento. É bem aí que ouvimos muitas vezes ao dia que somos melhores e mais fortes que nossos algozes e que nós sobreviveremos. Mesmo doloridos, com o coração remendado e o peito arrebentado, juntamos os cacos, colamos os ossos e nos abrimos pro que há de vir. Isso acontece e que bom que acontece!


quarta-feira, novembro 04, 2009

Sobre Concurso Público, riqueza e poder.


Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que venceram nessas batalhas.

Darcy Ribeiro


Ser ou não ser [concursado]? Eis a questão!

Para ter riqueza, reconhecimento e poder o sujeito se adéqua a qualquer realidade, cada um de acordo com sua meta. Neste caso, pode-se recorrer à Hollywood, à Rede Globo, a grandes cargos políticos, escândalos tenebrosos pra aparecer a todo custo ou ao meio mais vislumbrado da atualidade: o Concurso Público. Com êxito garantido na prova de seleção mais difícil da vida adulta pós-vestibular [por motivos que vão da sorte ao ajuste do sujeito às particularidades da CONCURSOLÂNDIA], riqueza é um fato certo em alguns casos; o reconhecimento e o poder vêm junto no pacote e no rótulo de concursado. Para algumas pessoas passar em um concurso pode significar estabilidade financeira, libertação dos grilhões do proletariado, a paz de espírito necessária para sustentar a saúde mental e evitar um Burn out, uma depressão no trabalho e etc e aí eu acho justo. Para outras pessoas pode significar fama, dinheiro a dar com pau sem fazer esforço algum, uma vez que o status de concursado foi adquirido e quanto a isso eu não vou me posicionar, pelo menos não neste trecho.

O que é certo é que 10 entre 10 seres humanos desejam passar em um Concurso Público [é uma estimativa exagerada?]. A massificação do concurso é uma coisa tão extraordinária que alguém que dissesse que não quer fazer concurso poderia ser executado em praça pública por blasfemar contra a globalização e o capitalismo. Este ser bizarro que não tem como projeto de vida passar em qualquer concurso que seja, pra se estabilizar, pra ter dinheiro pra bancar suas necessidades consumistas, pra ser considerado o ser mais inteligente da face da Terra por ter feito não sei quantos pontos e ter se classificado em primeiro lugar para não sei que cargo suuuuuuuuuper concorrido, oferecedor de pompa e regalias diversas; esse extra-terrestre está fadado à pobreza eterna [financeiramente falando] e ao exílio para a FRACASSOLÂNDIA. Pois bem, eu devo admitir que cheguei à conclusão linda e penosa [como tudo que é martírio nesse mundo] de que eu sou este ser. Eu remo contra a maré, eu tento [quase sangrando] não me submeter a tudo que é padrão social, não por birra, mas porque ainda me guio por minhas ideologias baratas e pouco acreditadas e por causa disso posso morrer pobre ou submissa a uma empresa privada; só porque não quero estudar pra concurso. [não agora e não pra esses]

Claro que eu tenho uma consciência dolorosa sobre o mundo que me cerca, claro que o monstro consumista que existe neste corpo e nesta alma se manifesta muitas vezes ao dia e promove uma vontade ardente de mandar essas ideologiazinhas pro inferno e me entregar à alienação do luxo e da estética, de encarnar uma personagem do Manoel Carlos, dessas que só comem salada, bebem muito e torram todo o dinheiro que nasce em um poço subterrâneo [só pode] em compras e em viagens internacionais. Sendo assim, se não for pela Megasena ou se eu não der um golpe num idoso milionário, só o concurso pode proporcionar este sonho glamuroso, confortável e alienado. Mas como sei que todas estas alternativas me são inviáveis no momento, prefiro fundamentar meus desejos nas minhas ideologias baratas, porém limpinhas. Eis o mistério da Fé e da contradição! Como acredito que tenho capacidade pra trabalhar e manter meus pequenos luxos, mesmo que meu dinheiro não nasça numa mangueira, como acredito que posso conhecer muitas coisas fora da Concursolândia e acredito acima de tudo em um conceito muito diferente sobre inteligência, prefiro meu mundo de pequenas lutas diárias. Não é que esteja fazendo uma apologia ao fim dos concursos, afinal, acredito na democracia, eu só defendo aqui o direito de viver na Fracassolândia em paz e com dignidade.

quarta-feira, setembro 23, 2009

"A comédia da vida privada"

[Discurso de uma neurótica a seu ficante, amante, caso, relacionamento não definido ou namorado potencial]

"Não leva a mal o que eu vou dizer, tá?. É que eu não vejo graça nesses jargões sexuais que você usa quase sempre quando quer me elogiar. Eu devia ficar feliz por ser desejada, mas não desse jeito. Por que tem que ser tudo tão direto e esculachado? Não dá pra ter o mínimo de criatividade e senso de sedução? Pra falar a verdade, eu fico inexplicavelmente [ou explicavelmente] incomodada, porque parece que só te interessa o que há entre minhas pernas ou o que está periférico a isso. Só isso não me apetece. Eu quero mais. Eu quero ser mais pra você. Eu quero ser inteligência, inspiração, desejo, motivação e um monte de outras coisas que eu posso ser e você nem enxerga ou sequer supõe. Essa sacanagenzinha toda que você fala, às vezes, me desqualifica. É uma questão minha. Eu sei. Isso é entre mim, minha mãe, Freud e um terapeuta pra interpretar. Eu sei. No bom popular: 'É um problema sexual meu'. Sim, é. Mas nós somos um casal, não somos? Não no sentido lírico, romântico e cor de rosa. Não há violinos tocando ao fundo de nossas conversas. Talvez nós não funcionemos da maneira mais idealizada, mas no sentido genérico HOMEM+MULHER, sim, nós somos um casal. Então, sinto informar que se você me quer como diz, me deseja como diz, me acha linda e coisa e tal, a partir de agora, meu caro, é uma questão sua também. Uma questão nossa! Porque você é o outro ser implicado nessa relação e se você não deixar de me tratar como uma boneca inflável de carne e osso, vai continuar sendo mesmo uma questão só minha, entedeu? Ou de qualquer outra pessoa que tenha o mínimo de empatia e sensibilidade. Não tome isso como ameaça, é só uma advertência. Tudo pelo bem do nosso relacionamento."

[Depois do monólogo travestido de lição de moral, o fulaninho saiu pra comprar cigarro e nunca mais voltou!]

sexta-feira, setembro 11, 2009

Sobre vingança e outros assuntos não-cristãos


Como é que dizem mesmo? “Vingança é um prato que se come frio”. Bem, eu tenho uma natureza vingativa velada, trancada a sete chaves dentro de mim, mas que não conseguiria negar por honestidade compulsiva. Se é um prato, pouco importa, poderia ser uma tigela, uma bacia ou um pires, mas minha ansiedade não suportaria que eu deixasse esfriar pra degustar. Por outro lado meu superego gritaria comigo e me faria chorar copiosamente se eu infligisse algum mal ao próximo. Nesse caso, a saída possível é desejar coisas horríveis aos meus desafetos, em silêncio, com uma ânsia sufocadora por justiça, mas sempre pedindo desculpas por deixar aparecer meu lado perverso e pouco cristão.

Pois bem, já que não posso colocar meus planos de vingança em prática porque sou uma histérica - e sair da condição de vitima poderia me render um câncer ou uma esofagite ou ainda um lugar no inferno - fico especialmente feliz quando os atos vingativos acontecem, não por minha responsabilidade, e aí está o alívio, mas por questão de justiça incontestável. É bem nessa hora que você constata que os seus sentimentos quanto àquele sujeito detestável, narcisista, perverso e infantil que partiu o coração de sua amiga e o seu por ter acreditado nele tanto quanto ela e que teve o que mereceu na hora certa, com toda pompa e circunstância, não correspondem ao ódio desmedido e passível de recriminação, mas tão simplesmente a um retorno justo de todo mal causado. Conspiração do cosmos, da Via Láctea ou de qualquer galáxia longínqua, ou só a materialização de meus desejos inconscientes? Quem poderia explicar? Ainda que sejam repercussões sobrenaturais, ver um imbecil pagando por seus pecados é realmente libertador e repito: um ato de justiça!

É claro que a justiceira aqui não se enquadra bem nos moldes de Madre Tereza. É muito provável que ondas de ódio me persigam por ai também. Eu só estou defendendo meu direito de ter sentimentos pouco nobres, desejar a morte, imaginar atos cruéis com as pessoas perversas desse mundo sem me colocar no mesmo nível de perversão. Embora todos estes desejos malignos listados sejam nada mais, nada menos do que perversão não assumida. Enfim, eu quero ir pro Céu, mas odiar e desejar vingança é inevitável. É humano, até. Claro, que é também um dilema a ser superado em uma existência inteira. É só não esquecer o bom senso e desejar o mal só por catarse e a quem merece penar nesta terra. Então fica assim: Naõ precisa ultrapassar os limites e limite eu obedeço bem porque, graças a Deus, mamãe me fez neurótica! Pelo bem dos odiados por mim, a culpa que me consome arrefece meus impulsos assassinos (além do medo de ser molestada por lésbicas na cadeia). É isso. Absolvida!

domingo, agosto 30, 2009

Amigos, amigos, outras relações à parte!

“…É fácil assumir uma posição a respeito de alguma coisa quando não há risco nenhum. É fácil dar esmola prá um pobre se você guarda o resto do dinheiro prá você. É fácil tomar posição contra a guerra, desde que ninguém peça que você se sacrifique…”
(ANOS INCRÍVEIS)
É muito raro encontrar alguém na vida que nos acompanhe, que nos dê amparo, que nos escute e que permaneça no mesmo caminho conosco, mesmo pensando diferente e se construindo diferente. É incrível como passamos uma vida inteira buscando pelo amor verdadeiro e sem lograr muito êxito, mas ninguém demanda tempo e investimento em busca de uma amizade verdadeira. Elas acontecem, simplesmente, por sorte ou acaso. E olha que amizade verdadeira existe, é um fato, já a existência do amor verdadeiro é questionável, a menos que o relato da Cinderela sirva de dado factual.
A amizade exige muitas outras coisas além da presença, dos bons momentos compartilhados. É uma relação de suporte, que dá respaldo pra construção de milhares de outras relações. Que nos torna melhores, mais fortalecidos e mais humanos. Se há uma coisa que me entristece profundamente é como na dinâmica dos relacionamentos a amizade sustentadora não se constitui como algo desejado e como se torna a primeira coisa preterida frente a outras ligações afetivas.
A amizade perde em quase todas as batalhas no campo minado do amor ao próximo. Perde pros namoros recentes, pros namoros mais longos, pra família dos homens ou mulheres da vida de nossos amigos, pros amigos dos homens ou mulheres da vida de nossos amigos, enfim, pura conseqüência do fenômeno da carceragem consentida. É uma pena, mas é também um dado da realidade social. E por ser um fato da realidade social gera acomodação, resignação, a sensação de estar em meio a mais uma luta vã.
Tá! Tudo aqui tá parecendo meio generalizado e exagerado? Força do hábito e desgosto engasgado. Pura insatisfação manifestada num tom de contestação e desânimo pela falta de energia e motivação pra combater um fenômeno cultural. Por minha parte, digo que meus amigos são minha fortaleza, meu crescimento de todo santo dia de batalhas ganhas e perdidas, meu investimento consciente e calculado a partir de um desejo de ser uma pessoa melhor pra mim e pra eles. Não porque me sobra afeto, mas porque luto pra cultivar o bem querer deles mesmo quando não estou satisfeita ou quando não concordo com algumas posturas. Porque o que há em mim é um amor crescente e otimista e quase sempre compreensivo, cheio de uma vontade enorme de que eles entendam que eu quero sustentar nosso crescimento juntos, sob qualquer circunstância!

segunda-feira, agosto 17, 2009

Receita do par ideal


1 xícara e meia de carisma

2 xícaras de gentileza

2 gotas de brutalidade para temperar e dar o toque másculo da coisa toda

¼ de charme

¼ de beleza

1 l de inteligência

1 pitada de porte italiano

Senso de humor a gosto (ou à vontade, eu diria)

Modo de preparo

Despeje um pouco de essência de glamour feminino e pincele com beleza e graciosidade. Deixe cozinhando em banho-maria por 10 dias, alternando entre a atenção exagerada e total desprezo (o tal reforço intermitente na Psicologia Experimental). Não deixe passar do ponto, aparecendo sempre que necessário e sempre no momento mais oportuno. Seja engraçada, mas não inconveniente. Adicione porções consideráveis de compreensão e empatia pelas vicissitudes masculinas e agregue conhecimentos sobre esportes em geral, sobretudo, futebol. Sirva morno, nem frio, nem quente, o meio-termo é sempre mais agradável ao paladar.

Bom apetite!

Quem dera se fosse simples como uma receita culinária. Mas poderia ser!

sexta-feira, agosto 07, 2009

Soluções simples para uma vida harmoniosa


Conviver harmoniosamente com as diferenças é um dom. Nós, mulheres, conhecemos bem as vicissitudes de nosso humor e comportamento. Às vezes não admitimos, só pra não perder o controle da situação, mas há o reconhecimento de nossas loucuras, sim. Mas também é preciso perceber que em algumas situações falta um pouco de sensibilidade humana, o que pode causar grandes catástrofes. Eis aqui algumas dicas para não irritar a raça feminina no cotidiano.


Nunca, jamais pergunte a uma mulher de cara amarrada se ela está chateada. A expressão facial quase sempre oferece sugestões óbvias e bem claras de linguagem não verbal. E claro, que em virtude de alguns hormônios como estrogênio e progesterona ela pode estar mesmo de TPM, pode estar cansada de um dia exaustivo de trabalho, pode ter perdido o emprego, brigado com o namorado, ex-namorado, amante, marido, mãe, atropelado um cachorro ou mesmo estar com cólicas. Portanto, na dúvida, não ultrapasse o bom senso e não faça perguntas cretinas. No máximo, ofereça um chocolate, mas não explique o motivo da oferta.


Nunca, jamais paquere uma mulher enquanto você estiver em uma situação mais confortável que a dela. Ou seja, se você estiver dentro de um carro e ela estiver sob chuva torrencial ou sol escaldante nem tente dizer uma gracinha. Provavelmente o sentimento despertado seria raiva e não vaidade. Afinal, o sujeito que presenciar seu cabelo "indo por água abaixo" ou "desmanchando" merece morrer por saber demais (queima de arquivo na linguagem policial). Além do mais, ver o cara fazendo elogios nestas condições soaria irônico. Também não ofereça carona (eu sei que esta solução foi cogitada). Ela não aceitaria: primeiro porque ela não pode falar com estranhos e segundo porque, novamente, soaria irônico ou debochado. Aparência e auto-confiança estão mesmo intimamente ligadas.


Nunca, jamais, por mais intimidade que exista informe a uma mulher que ela está acima do peso, com uma espinha na cara ou precisando de um corte de cabelo. Como já dito, algumas de nós têm bom senso, espelho em casa e percebem quando as roupas não servem mais, quando o cabelo está detonado e quando os cosméticos não dão mais conta do estresse que corrompe o frágil corpo feminino.


Nunca, jamais, em tempo algum diga diretamente a uma mulher que ela não passa de uma doida -desesperada. Tomar consciência das nossas condutas histéricas sem estar em terapia pode ser um choque irrecuperável, quase um portal para o rompimento com a realidade objetiva. Por isso, seja sensível, sutil, use um eufemismo se for mesmo muitíssimo necessário proferir alguma insatisfação, mas nunca vá direto ao ponto. Ela gritaria com você de qualquer forma e ficaria profundamente magoada mesmo que você só dissesse que ela anda meio alterada ultimamente. Melhor não comentar nada. O segredo é ter empatia.


Nunca, jamais, nunquinha mesmo, ainda que você esteja com ódio mortal da desgraçada diga a ela, ou sequer sugira que sua ex-namorada é mais bonita, ou mais engraçada, ou mais compreensiva, ou mais humana, ou mais magra (ou qualquer outra comparação que beneficie a outra) do que ela. Isso é uma ferida narcísica profunda e leva anos de análise para ser superada. Ela vai se remeter a isso em todas as brigas, em todos os momentos de calmaria, quando encontrar com a macaca no shopping, na lua-de-mel em Paris, enfim, um fato relembrado a vida inteira. Numa briga, quando o ódio no coração não puder mais ficar guardado, grite que quer que ela morra. As possibilidades de perdão são maiores.


É válido ressaltar que algumas dicas se respaldam em acontecimentos auto-biográficos e outras se baseiam na natureza inventiva desta cabeça doente e cheia de clichês de seriados. Mas o que conta aqui é o propósito final, que nada mais é do que a paz mundial. No fim das contas não custa nada tentar.

sexta-feira, julho 31, 2009

Sobre os "caras legais"


Os caras legais são definitivamente um problema difícil de superar. Sei que se comparados aos "bad boys" não há o que temer, não há sequer graça ou aventura neles, mas tudo é só questão de perspectiva e da mistura certa. Portanto, quando falo em "cara legal" refiro-me àquele sujeito extremamente gentil e atencioso, mas também inteligente e com um senso de humor interessantíssimo. Ainda não enxergam o perigo? Pois bem. Na minha opinião os "caras legais" são extremamamente sedutores, astutos e uma incógnita. E o pior de tudo: o charme dessas pessoas é diretamente proporcional ao efeito ansiogênico que provocam.

Se pensarmos bem, os "caras legais" possuem uma estratégia reconhecidamente eficaz, fato que os coloca em uma situação bem mais confortável e segura ao mesmo tempo que nos deixa confusas e sem senso algum de direção. A natureza gentil (e sedutora) deles é dúbia, mas isso é parte constitutiva da "energia atrativa" que estes seres emanam ou pode ser tão somente gentileza despretensiosa; só a busca por uma vaguinha no céu. Quando podemos saber a diferença? Nunca! Talvez alguma luz, ainda que fraquinha e não confiável,vinda de um mapa astral ou aproximações interesseiras dos melhores amigos do "cara" possam direcionar alguma conclusão mais superficial, mas ainda assim tudo é só possibilidade e nada mais. Nada é certo. Nada é seguro.

Se eles estão realmente interessados em uma aproximação mais calorosa o "jeito-cara-legal-de-ser" é a deixa para a justificativa: "os sinais estavam lá o tempo todo. Você que não percebeu". Ponto pra eles. Se eles não estão interessados no amor que você tem pra dar vem o argumento: "Você entendeu tudo errado. Eu trato você bem porque sou legal. Desculpe". Ponto pra eles de novo. Até aí são 2x0 e você só tem mais uma vida, qualquer passo fora do lugar e GAME OVER!

Acho mesmo que nestas circunstâncias um guia ou um manual de sobrevivência seja necessário. Sugestão para títulos: CARAS LEGAIS: DECIFRE-OS OU ELES TE DEVORAM; CARAS LEGAIS SOB A PERSPECTIVA DOS CARAS LEGAIS; CARAS LEGAIS: MELHOR NÃO TÊ-LOS, MAS SE NÃO TEMOS, COMO SABÊ-LOS?; TRATADO SOBRE OS CARAS LEGAIS ou ainda CARAS LEGAIS À LUZ DA DIALÉTICA MARXISTA ou COMO NÃO SER OPRIMIDO POR UM CARA LEGAL. De verdade, solicito um estudo de caso urgente!Para o bem da nação e dos corações apaixonados e partidos. Essa é definitivamente uma causa humanitária.