sexta-feira, outubro 05, 2012

Se beber, não paquere: outras possibilidades para sair do anonimato afetivo

CAPÍTULO 1: SAÍDA COM OS AMIGOS PRA CURTIR A “NIGTH”


Imagem: Pulp Fiction: Tarantino, 1994



      Seduzir alguém é tarefa desgastante pra quem não tem habilidades mínimas. “Ir à caça” não é mera força de expressão ao se tratar deste assunto. Você tem que estar preparado física e intelectualmente. Como se diz em termos biológicos, tem que estar preparado pra fugir ou lutar. Uma vez preparado, é preciso coragem, energia e improviso para lidar com situações não planejadas. É preciso também estar pronto para as eventuais pancadas. Há que se ter robustez. Sair com os amigos para a “nigth” pode significar enfrentar uma selva quando se pensa em paquera. Enfrentar a concorrência (que pode ser, inclusive, autoboicotes) pode provocar feridas de guerra. 
      No capitulo de hoje veremos como é a arte de não seduzir alguém em ambientes públicos como boates, barzinhos (barezinhos?) e similares. E a dica de ouro é a inspiração para a criação desta série: se beber, não paquere.

      Vamos às possibilidades:

    Nessa situação específica existe um grande problema que precisa ser resolvido para que os outros, encadeados a este, possam se solucionar: aquela falta de vontade, disposição e movimento quando se fala em sair pra balada. É preciso ter um mínimo de disposição e autoestima pra querer expor a própria figura na rua e isso tem que ser trabalhado horas, dias e até meses antes do grande evento. Uma vez resolvido este problema que é o maior impasse, à priori, é hora de pensar em outros entraves relativos ao início, desenvolvimento e conclusão da noite.

A CHEGADA

     A pior atitude nessas situações é não olhar à sua volta, não avaliar as alternativas. Geralmente quem não tem um repertório de sucessos na paquera ou no namoro desenvolve mecanismos de defesa poderosos que até cumprem seu papel, mas não dão oportunidade de desenvolver habilidades que podem levar ao sucesso da conquista ou à tolerância à frustração. Levar nãos (contanto que não seja sempre) também pode nos ajudar a suportar os fracassos e a saber conviver com eles sem esmorecer. Portanto, não olhar em volta faz com que oportunidades sejam perdidas e ninguém vai saber que é porque você é míope.

O DESENVOLVIMENTO

     Depois de algum tempo em que você já foi vista e avaliada e que também já avaliou muita coisa deveria ser comum que alguém “chegasse junto”. Infelizmente, na atualidade, com o advento da independência feminina, não é bem o que acontece, por isso todas as falas ensaiadas sobre comentários inteligentes e engraçados a pretensas investidas não vão ser colocadas em prática, a menos que você tome a iniciativa. Mais uma vez: há que se ser ter coragem. É preciso ter inteligência pra improvisar. No entanto, os desprovidos de senso de sedução jamais conseguiriam tomar a iniciativa e ir à luta, mesmo que já tivessem tomado quase um tonel de cerveja. Nesse momento, o medo do não vem travestido de autoconfiança e orgulho. Logo, esperar pretensas investidas pra que você possa colocar o texto ensaiado com tanta dedicação em prática nunca dará certo. E é sério.

FIM DE NOITE: 

     Aqui as possibilidades se tornam escassas e não há muito o que fazer, até mesmo porque os sinais de cansaço, decepção e derrota já estão estampados na face torta e borrada devido à ingestão de álcool durante horas. Neste instante, numa tentativa desesperada e tardia de correr atrás do prejuízo, aquele charminho ao segurar a garrafa de cerveja com todo aquele ar de quem sabe o que quer já não cola mais. Poderia até dar certo se a pessoa ainda mantivesse suas faculdades mentais em ordem, já que um gesto fálico denota sempre poder, mas não é o caso. O que aconteceria, de fato, é que, ao cerrar os olhos e jogar o cabelo pro lado, as probabilidades de cambalear, tropeçar e até sair pela tangente seriam altíssimas e isso tornaria a pessoa menos dona do mundo-sedutora-determinada e a faria parecer mais uma alcoólatra-carente-míope e pouco criteriosa em fim de festa. Portanto, não tente bancar a sedutora quando não conseguir mais ter controle sobre a própria consciência ou quando já estiver afetada pela exagerada ingestão de álcool.

Lições do capítulo de hoje: mantenha a autoestima em dia, mas isso não significa chegar à conclusão de que ninguém está à sua altura. Seja seletiva, inclusive com os nãos que você dá. Procure manter o bom senso e a coerência – o que implica em segurar a onda em ambientes públicos, principalmente bares e boates que estimulam a bebedeira. Por fim, não dê ouvidos a receitas de como seduzir ou não seduzir alguém. Quem avisa amigo é.

Trilha sonora sugerida: A FÓRMULA DO AMOR (LEO JAIME)

Trecho para citação: “Eu tenho a pose exata pra me fotografar. Aprendi nos livros pr'um dia usar. Um certo ar cruel de quem sabe o que quer. Tenho tudo ensaiado pra te conquistar. Eu tenho um bom papo e sei até dançar. Não posso compreender. Não faz nenhum efeito...”

Imagem: Pulp Fiction: Tarantino, 1994

quarta-feira, outubro 03, 2012

Se beber, não paquere: outras possibilidades para sair do anonimato afetivo.

      Existem pessoas que não são as mais indicadas pra ensinar sobre o amor ou sobre a arte de seduzir alguém, por pura falta de instrumental e repertório de conhecimento ou por preguiça de ir à luta. Porém ensinar como não se seduz também pode servir como ferramenta útil pra quem ainda tem fé em experimentar as emoções da paquera, da conquista, do namoro e dependendo das atitudes tomadas, do provável fim ou  - quem sabe, com sorte, de um enlace matrimonial - e aí sim experimentar o provável fim (ou não!).
      Logo, saber o que não se deve fazer também pode levar a estratégias mais positivas e mais funcionais. Geralmente esses mestres na arte de não seduzir imaginam demais como tudo deveria ser e tudo isso é obviamente induzido por um arsenal de seriados, filmes e trilhas sonoras que ajudam a criar o melhor roteiro existente na imaginação, mas que não acontece onde realmente importa: na vida real. Portanto, isto é mais um serviço de utilidade pública prestado por este espaço de divagações pra que os não sedutores anônimos (e todo problema reside no anonimato) possam refletir sobre suas posturas e tenham a oportunidade de promover pequenas mudanças na vida afetiva.

Vem aí a série: Se beber, não paquere: outras possibilidades para sair do anonimato afetivo.
Aguardem cenas do próximo capítulo.

terça-feira, julho 03, 2012

Última carta pra você!


Eu voltei porque eu precisava registrar as últimas palavras não ditas. Eu voltei porque preciso te dizer o que você precisa saber pra se sentir absolvido de uma culpa que, definitivamente, não é sua. Eu queria te dizer que agora não há mais ressentimentos, nem aquela dor no peito por não ter concretizado um grande amor. Eu queria te dizer que consegui elaborar o luto que me acompanhou por esses anos. Eu aceitei a nossa condição e estou em paz com isso.
Você continua sendo o homem mais bonito, gentil e inteligente que eu já conheci. Eu ainda sinto esse amor maior que eu e que a minha força de vontade. Eu ainda admiro tudo o que você é. O meu amor é o mesmo, mas eu aceitei a nossa condição. O que eu sinto por você é da ordem do platônico, do perfeito, do ideal. Esse amor que eu sinto jamais poderia ser maculado pelas experiências cotidianas, pelo desgaste da convivência e pelos defeitos humanos. É assim que nós existimos um pro outro. É assim que você precisa se manter existindo pra mim.
 Eu não quero ser repetitiva. Nem compulsiva. Nem obsessiva. Eu quero mesmo só dizer adeus, porque agora tenho certeza de que fechei um ciclo. Eu só escrevo essas últimas palavras não ditas porque ainda restou muita coisa aqui dentro pra guardar sozinha. É só uma medida preventiva, pra evitar esse engasgo que vem quando queremos dividir algo grande e não podemos.
Meu amor, eu sempre irei me lembrar de você, mas agora, pra mim, você é uma realidade distinta. Você é a referência de desejo que existe só pra me fazer recordar que o amor que quero viver é uma realidade concreta, mesmo que não esteja inserida na minha. Você será meu parâmetro de crenças saudáveis pra que eu não morra no desespero e na falta de fé. Pra que eu continue acreditando no homem da minha vida. Você é quem vai me lembrar que este homem chegará, ainda que minha ansiedade possa botar tudo a perder, ainda que minha lerdeza possa botar tudo a perder, ainda que minha teimosia possa botar tudo a perder.
Você não chegou a me amar porque não me conheceu. Eu também não te conheci bem. Mas esse amor fez e faz de mim alguém melhor, mais otimista. Esse amor também promoveu um amor próprio que eu desconhecia. Amando você eu passei a me amar mais e isso foi o maior bem que você fez a mim. 

domingo, abril 08, 2012

E quando não houver mais Esperança?

"Se fiquei esperando meu amor passar, já me basta que então eu não sabia amar".
                                                                                                            Legião Urbana


Esperança sempre nutriu a fantasia romântica de que encontraria o Amor da Vida naturalmente, sem grandes esforços e com todos os requintes que uma linda história de encontro deve ter pra ser referência: olhares de amparo e de certeza de um bem querer eterno à primeira vista com o som de violinos ao fundo.

Durante a adolescência esperou pacientemente que o homem dos seus sonhos chegasse pra resgatá-la daquela solidão que lhe rasgava o peito. Esperança esperava porque sabia que não merecia menos do que seus sonhos de amor determinavam. Afinal, se nos filmes acontecia assim, não era demais exigir uma trilha sonora e um sujeito que tornassem sua existência mais especial.

E esperança esperou paciente até o seu limite. Quando a paciência se esgotou deixou de esperar e passou a desesperar. Perguntava-se, amarga e pessimista, por que a vida era tão dura, por que logo ela, tão inteligente, tão bonita, um excelente partido, não tinha a sorte de encontrar o Amor, apesar de esperar por ele com a devoção de uma religiosa?

Sem mais o que fazer, continuou esperando, quase sempre sem cansar, até que Pedro apareceu. Pedro viu em Esperança as qualidades que nenhum homem percebera. Pedro teve coragem de declarar sua admiração sem pudores, porque só ele reconhecia que uma mulher como Esperança não merecia desperdiçar sua existência num canto esquecido do mundo. Uma mulher como Esperança merecia ser amada. Pedro, então ofereceu seu amor, mas Esperança preferiu esperar mais um pouco. E se alguém melhor que Pedro aparecesse? Ela merecia um amor de cinema, afinal. Decidiu que se aos 30 anos o homem dos seus sonhos não aparecesse ela aceitaria a oferta de Pedro.

O tempo não esperou muito. Ao contrário de Esperança, é mais prático. Logo, aos 30 anos, sem sucesso em relação aos seus objetivos amorosos, Esperança estabeleceu mais um prazo: aos 35 anos, se o Amor da vida não surgisse, ela construiria com Pedro uma vida amena, sem arroubos. Pedro, que também era paciente, esperava por Esperança enquanto Esperança esperava o desconhecido. Nesse percurso de tantas esperas o tempo, mais uma vez, foi implacável e não esperou. Aos 35 anos, Esperança estabeleceu mais uma moratória. Se aos 40, seu amor de cinema não surgisse pra que finalmente ela pudesse viver seu roteiro hollywoodiano, ela se contentaria com um filme mudo, em preto e branco com Pedro, que perseverante, não perdia as esperanças, com o perdão do trocadilho.

Com o passar dos anos, Esperança sentiu que sua vida era uma página em branco e percebeu que de tanto esperar estagnou. Olhava pra dentro de si e só vislumbrava um grande abismo. Amaldiçoava sua sorte, ressentia-se com a falta de sensibilidade dos homens que não notavam seus atributos e lembrou-se de Pedro. Este homem nunca recuou um passo e manteve-se sempre no mesmo lugar, à sua espera. Começou a pensar se ele também sentia esse abismo dentro da alma e questionou se não era ele o protagonista de sua história de Amor. Decidida, Esperança não esperou mais. Foi ao encontro de Pedro pra comunicar que, enfim, ela entendeu. Esperança entendeu que esperar pelo Amor não é a melhor estratégia, que enquanto esperava ela perdeu todos os capítulos de sua história de vida. Entendeu que para concretizar sonhos é preciso ter iniciativa e autonomia e que um sonho não precisa ser necessariamente enfeitado a ponto de tanger a impossibilidade. Esperança entendeu e queria compartilhar isso com aquele que poderia ser o Amor de sua Vida.

Justo quando Esperança deixou de esperar e resolveu sair do lugar de conforto em que se encontrava uma tragédia abateu-se sobre a nova vida que se desenhava. Talvez por também esperar e não conseguir sair do lugar, Pedro não resistiu. Pedro morreu nutrindo o desejo de fazer Esperança feliz. Esperança mais uma vez mergulhou no abismo de sua alma, já que este lugar foi o único lar que construiu durante sua longa espera. Pedro morreu esperando. Esperança estaria fadada a esperar até morrer. Rindo da própria desgraça se fez um último questionamento: seria cômico ou trágico acreditar no ditado que diz que “Esperança é a última que morre”?

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

FALA QUE EU TE CURTO!

"Sofremos com todas as forças que nos obrigam a nos exprimir quando não temos grande coisa a dizer" (Gilles Deleuze)

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo” (Raul Seixas)


Em épocas como a de agora, em que a virtualidade ganha mais espaços do que a realidade na vida, é inevitável se questionar e, por vezes, se incomodar e se enfadar com essa necessidade de se exprimir o tempo todo. Deleuze e Raul já falavam disso há nem sei quanto tempo, quando a tecnologia ainda nem era mais uma força pressionando a expressão de qualquer opinião sobre qualquer assunto. Em tempos de twitter e facebook, se fala indiscriminadamente de qualquer coisa. As informações passam por nós de forma tão frenética que quando nos damos conta estamos lá, emitindo opiniões, fundamentadas ou não, compartilhando, retuitando, curtindo, ofendendo, criticando ou tão somente respondendo obedientes às perguntas “No que você está pensando agora?; O que está acontecendo?”. 

Nem sempre o que pensamos ou o que acontece em nossa intimidade precisa ser exposto pra qualquer pessoa. Nem sempre o que pensamos ou o que acontece em nossas vidas é realmente relevante. Essa exposição a que nos alienamos é perigosa e invasiva. Vez ou outra nos encontramos, satisfeitos ou insatisfeitos, via redes sociais, proclamando nossas angústias, felicidades, desejos, conhecimentos sobre cultura à espera de qualquer manifestação de outras pessoas que amparem os mesmos sentimentos pra nos sentirmos aceitos. Eu entendo a necessidade de pertença. É um recurso social de sobrevivência. Também vislumbro as redes sociais como instrumentos de cidadania, de propagação de manifestações genuínas de posturas políticas que, na maioria das vezes, promove mudanças significativas, ainda que não grandiosas. Também compreendo que a vida se movimenta pra mudanças que não devem ser negligenciadas, como as tecnologias atuais. Até porque, mais uma vez, o sentimento de pertença existe pra que não deixemos de ser grupo. 

O alcance das informações difundidas nas redes sociais não é o problema. O problema reside na forma como lidamos com as informações que chegam até nós. O problema é a falta de filtro. Deve existir algo que se queira guardar pra si mesmo ou pra intimidade partilhada com as pessoas mais queridas e mais próximas. O problema é que estamos sofrendo desse mal que não nos permite mais ser seletivos. Não somos seletivos quanto a quem queremos ao nosso lado, seja como amante ou como amigo, nem com as informações que importam, nem com a emissão de nossas visões de mundo. Nessa era pós-moderna é assim: tudo junto e misturado. Quem não tem peneira deixa passar tudo e se perde ao desconsiderar o que é essencial. Hoje em dia, quem tem um smartphone não perde mais nada da vida, exceto a vida real, a vida em volta, a vida do amigo que está logo ali, na cadeira ao lado, no mesmo restaurante que está sendo marcado nos aplicativos do facebook.


Este texto surgiu da minha insatisfação sobre o mau uso de ferramentas que podem servir pra coisas muito mais nobres, insatisfação que estava prestes a ser publicada nas minhas redes sociais. Essa é a grande ironia: criticar coisas que nós mesmos fazemos. Porque o facebook e twitter estão cheios de publicações recheadas de posturas políticas do tipo “Eita, Brasilzão sem jeito!”, “Esses políticos são o câncer do país”; “Brasileiro precisa aprender a votar direito, seja nas urnas, seja pra quem deve sair do BBB”, “Odeio todo tipo de reality show, mas, por acaso, soube daquele estupro. Isso é um absurdo. Aonde vamos parar? Manda matar o Bial”; “A Luiza voltou do Canadá, tá famosa e eu não vou me posicionar sobre o assunto. Só digo que acho tudo isso uma besteira”. Olhar pras nossas próprias contradições é um ato corajoso e de sanidade. Brasileiros somos nós, usuários de twitter e facebook, então, não faz sentido criticar se nos colocamos como meros expectadores. Nesse caso, eu também não sei votar. Também acho que a repercussão sobre a Luiza no Canadá e sobre o suposto estupro no BBB são duas grandes bobagens, mas expor isso na minha timeline já é falar sobre o assunto e, por conseqüência, participar da propagação da besteira. 

Ter crítica é desconfiar com moderação. É o meio do caminho entre opinar sem saber do que se trata e se insatisfazer sem saber a procedência. É tentar ser, no mínimo, coerente. É checar a informação pra se saber se é necessário mesmo opinar. É tentar questionar posturas que lhe fazem mal, com as quais não se concorda mais. É mudar de idéia, mas é, acima de tudo, agir conforme o que se pensa e pra isso é preciso problematizar. Problematizar inclusive a sua vida, as suas posturas, as suas visões de mundo, porque se a incoerência publicada de alguém incomoda mais do que as suas próprias incoerências é hora de verificar se as vias de informação que se usa ainda fazem sentido. O que quero dizer é que sendo eu responsável por minhas ideias e exposições delas, sou também responsável pela ferramenta que utilizo, portanto, antes de me ressentir com alguma ideia publicada, por que não ignorar? Afinal de contas a liberdade de expressão ainda é um direito, mas se a insatisfação é gigantesca quanto ao que está sendo exposto chega a hora de utilizar outros serviços oferecidos pelas mesmas ferramentas. É aí que se faz necessário o uso, com responsabilidade e sem culpa, dos botões: bloquear e excluir amizade. Como se vê, tudo depende mesmo de um posicionamento pessoal, desde que seja coerente. (Des)curta quem (des)curtir.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Senhor Jesus

Eu sei que estou um pouco atrasada, mas neste Natal, queria deixar o registro dos meus votos de um Feliz Aniversário. Nem vou pedir nada, só queria mesmo agradecer toda a ajuda, todo o suporte que tens me dado. Agradeço pelo meu trabalho, pelos amigos que me acompanham, pela família que amo, pelas mudanças que tenho vivenciado, pela minha saúde, que mesmo capenga, ainda tem sustentado meus projetos diários. Agradeço pelo Amor que cultivo em mim, pelos outros, por mim mesma e por Ti. Agradeço em nome da fé que nunca me deixou cair, mesmo nos momentos mais difíceis e desesperadores. Essa fé que me fez ser quem sou e que tem feito eu me orgulhar (muito) disso. Essa fé que mantém meus projetos em perspectiva e que me salva dos inúmeros transtornos mentais que me rodeiam, mas que nunca chegaram até mim. Por causa da fé que tenho em Ti.

Eu disse que nem queria pedir nada, mas eu vou pedir. Perdão! Pelas vezes que reclamei do meu trabalho, dos meus amigos, da minha família, das mudanças que tenho vivenciado e da minha saúde capenga. Pelas vezes que duvidei de mim e da minha fé na vida e nas pessoas. Pelas vezes em que eu esqueci de agradecer pelas minhas conquistas. Principalmente, por ter, durante anos, esquecido que esta data se refere a seu aniversário e, portanto, não sou eu que tenho que ganhar presente. E sendo seu aniversário, peço perdão por ter alimentado uma nostalgia e melancolia despropositadas nesta data e não a alegria de celebrar um evento de tamanha grandeza. Peço perdão pela preocupação em reunir a família, em perdoar, em ter compaixão, apenas nesse dia. Prometo levar este momento de consciência pro resto do ano e pro resto da minha vida. Eu, que já fiz cartas pra tanta gente e sob tantas motivações, desta vez, escrevo uma carta pra registrar meu Amor. Pra que eu nunca mais esqueça!

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Poderia ser pior

Existem coisas na vida que não poderiam dar mais errado. Dias em que seria melhor nem ter levantado da cama pra enfrentar a selva de concreto. Momentos de arrependimento profundo em que você se lamenta por ter feito o que fez e da forma que fez. A seguir alguns exemplos e formas alternativas de pensar a vida.

Se você foi cuidar da papelada pra tirar sua CNH e, sem saber que teria que tirar foto, não colocou um mol de maquiagem porque tinha que ganhar tempo e o seu cabelo, que parecia querer fugir da cabeça, estava sendo contido por apenas uma liga, tudo bem. Poderia ser pior. Além de não estar maquiada você poderia estar com um tersol ou uma conjuntivite e poderiam ter grudado chiclete no seu cabelo.

Se você perdeu tempo esperando o sinal abrir e também o último ônibus que passou em horário digno, não se culpe. Poderia ser pior. Você poderia ter sido atropelado na pressa de alcançar o motorista apressado.

Se você se aborreceu com seu amor porque ele nunca nota qualquer mudança de visual ou porque ele nunca compartilha seus segredos com você, relaxe. Poderia ser pior. Além de não notar suas mudanças estéticas ou não compartilhar segredos ele poderia ser um opressor, lhe tratar mal, desrespeitar sua autonomia e desconsiderar seu ponto de vista sobre tudo.

Se você não passou naquele vestibular, naquele teste, naquela entrevista de emprego, não esquente. Poderia ser pior. Você poderia estar prestes a fazer um curso insuportável, a ter um emprego monótono e desmotivador ou ser obrigado a fazer parte de um mundo ao qual você teria a sensação de não pertencer.

Se você finalmente teve coragem de confessar seu amor a alguém que não pôde lhe corresponder, não se desespere. Poderia ser pior. Ele poderia ser aquela figura opressora que lhe trataria mal, desrespeitaria sua autonomia e desconsideraria seu ponto de vista sobre tudo.

E se você vê tudo pela perspectiva da catástrofe, esclareço: eu quero dizer que não importa quão ruim seja um evento, mesmo que ele seja a pior coisa já acontecida na história da sua vida, há sempre grandes possibilidades de sobrevivência. Então, por que perder tempo com lamentações desnecessárias? As coisas são como são e mais: como podem ser. Se a vida te der um limão, junte gelo, açúcar, vodka e faça uma caipirinha. Se você prefere evitar hábitos deste tipo, faça uma limonada, mesmo sendo mais clichê. Até porque não adianta muito se consumir de desespero pelas frustrações vividas. Isso pode até servir pra reorganizações e posicionamentos futuros, mas se encerrar no sofrimento pelo que não saiu como se planejava é um desgaste realmente dispensável.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Além do capital

Eu não consigo mais admitir que haja dignidade em trabalhar como um mouro, mas insatisfeito.  Eu não consigo entender a lógica de que pra valorizar o suor do rosto, vertido às custas de muito sacrifício e sofrimento, seja preciso trabalhar até a morte ou até os limites da saúde. Se bem que entender a lógica eu até entendo. É que no capitalismo, pra aumentar a sua cotação no mercado, é preciso que você prove que pode produzir em quaisquer condições. Eu até entendo, mas não concordo. Se eu já achava absurda a máxima de que sinônimo de amar é sofrer, tampouco considero a possibilidade de que sofrimento valorize o trabalho, o ofício de uma pessoa. Sofrimento não valoriza nada, mas existe uma cultura sádica e/ou masoquista que insiste em igualar sofrimento a mérito. É justamente essa cultura do mérito que é responsável por essa loucura toda. Pra justificar o orgulho de pendurar no pescoço aquela medalha de honra que reafirma que o sujeito abdicou de uma vida mundana, de prazeres desnecessários pra produzir (ou reproduzir?) conhecimento, dinheiro, cultura. Porque a medalha de honra e o quadro de funcionário do mês vão sempre pra aquele que trocou o lazer, o bem estar e porque não dizer a indolência (?!) por horas de estudo, de trabalho e por isso será recompensado. É essa cultura do sofrimento como mérito que embota nossos afetos, nossa inteligência e nossa crítica. Afinal, somos brasileiros e não desistimos nunca, não é?

Para com isso, Capitalismo! Por que nos referimos ao termo “dia útil” como um dia de trabalho ou de estudo? Fins de semana e feriados são inúteis? Só porque nesses dias é muito mais útil desfrutar de um almoço em família, de um abraço, de um seriado, de um filme, de boa música, de uma boa conversa, dos nossos amigos, filhos, afilhados, sobrinhos, namorados, maridos ou simplesmente da delícia de não ter nada pra fazer? Porque provavelmente não estejamos preocupados em entupir nossos currículos de propaganda pessoal, com títulos e feitos que deveriam preencher, no mínimo, umas trinta paginas pra que o nosso rótulo de profissional capacitado seja colocado nas prateleiras de maior consumo? Porque não estamos interessados em competir pela atenção do chefe só pra matar nossos concorrentes de inveja? É sério. Isso não tem mais graça. E a mim não convence mais que é o justo e bonito.

Até porque agora eu sei que no fim das contas quem paga uma fatura altíssima sou eu. Minha saúde tem limite de crédito. E eu não posso mais negligenciar isso porque a conta está sendo cobrada com juros. E eu só posso pagar o mínimo porque não consigo mais ter tempo pra mim. Porque se eu quiser tempo pra mim vou ter que assumir o rótulo de irresponsável, fraca e preguiçosa (injustamente). Eu sei que preciso pagar minhas contas. Eu sei que esse é meu mundo e eu preciso me adequar da melhor forma que conseguir. Eu sei que, como diria uma professora minha, ao citar Lacan, a gente goza no capitalismo. Eu sei que o Código de Doenças Internacionais (CID-10) está aí pra diagnosticar as conseqüências dessa relação doentia com o mundo, relação de submissão que faz parte da nossa condição atual. Eu sei que se eu pudesse me enquadrar em mais um rótulo estaria na transição subversiva entre o workalolic e o *workafobic. E se você passa a ter pavor do trabalho a fase seguinte seria rasgar dinheiro. E todos sabem que o que isso quer dizer na cultura popular.

Eu sei que preciso de um ofício. E aí está a razão dessa luta que assumi em nome do meu bem estar. Um ofício não precisa ser sofrido, não precisa ser desumano. Um ofício pode ser amado e pode trazer satisfações. E quando falo de satisfação não me refiro a títulos, a um salário com incontáveis dígitos, à comodidade oferecida por concursos públicos, à admiração das pessoas por eu ter conseguido além de um lugar ao sol, o prestígio conquistado com esforço e determinação. Um ofício pode ser leve e render dinheiro suficiente pra pagar suas despesas e pequenos luxos. É possível que exista prazer em oferecer um bom trabalho, em ajudar alguém que pode vir a ser mais que um cliente, sem desenvolver uma úlcera ou um transtorno de ansiedade. Um ofício pode ser bonito sem ser piegas ou voluntário. Um ofício precisa deixar tempo livre pra fazer coisas só por vontade e aí reside a lógica do trabalho voluntário. Um ofício é uma prestação de serviço, mas pra isso não precisa perder sua condição humana. Um ofício deveria nos oferecer a possibilidade de termos um lugar no mundo e não a obrigação de competir alienadamente pra poder bancar esse lugar.

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* Que eu saiba o termo workafobic não existe, foi a tentativa de um trocadilho com o termo workaholic.

terça-feira, dezembro 13, 2011

OS BONITOS QUE ME PERDOEM, MAS SENSO DE HUMOR É FUNDAMENTAL

Pessoas influentes são capazes de eternizar jargões. A célebre constatação de Vinicius de Moraes sobre as mulheres que diz “As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental” indica que os homens gostam mesmo é de mulher bonita, sendo este, muitas vezes ou pra muitos deles, o único critério ou, pelo menos, o primeiro que chama a atenção.

Em uma entrevista sobre a trajetória da Tati Bernardi como roteirista me chamou a atenção uma coisa que o Alexandre Machado, marido da Fernanda Young, comentou. Que senso de humor nas mulheres não atrai os homens. Na hora me veio um pensamento inevitável, quase intrusivo: deve ser por isso que eu não me arranjo.

Pensando nisso, cheguei à única conclusão possível pra mim. Com licença, Vinícius, posso parafrasear seu raciocínio? Os bonitos que me perdoem, mas senso de humor é fundamental. Até porque não há outra saída pra mulher bem humorada.

Se a mulher solta uma piada espirituosa sobre o trânsito congestionado, sobre suas histerias, sobre sua TPM, sobre seus desesperos, sobre seus destemperos, sobre sua solidão, sobre suas loucuras, sobre suas insatisfações sobre seu homem, sobre a família dela, sobre a família dele e o sujeito não ri, não esboça reação, não move sequer um músculo facial, meus queridos, não tem como seguir nesta relação.

E não é nem pelo fato da piada ter ou não ter graça, é da incapacidade alheia de ver graça nas coisas. Eu imagino que a mulher que tem senso de humor esteja mais próxima do melhor amigo do que de uma gata desejável. Porque mulher pode ser até inteligente, culta, mas engraçada, não. Engraçados são os caras do Improvável. A mulher do cara tem que ser gostosa.

Até porque deve ser difícil um rapaz, ao descrever sua peguete pros amigos, falar “cara, ela é doce, inteligente e engraçada. Adoro quem me faz rir”. Provavelmente diante da estupefação dos colegas o sujeito teria que completar a frase pra não se sair tão mal: “... e tem uma bunda, meu amigo”. Uhu!

Provavelmente um homem não gritaria Uhu!, mas enfim. Outra coisa inconveniente no relacionamento entre uma engraçada e um sem graça são os trocadilhos. Não há nada mais humilhante do que ter que explicar trocadilhos. Até porque piada nem precisa ter lógica, se precisar de explicação não faz mais sentido. É uma situação vexatória porque dessa forma o sujeito atesta seu estado de demência. As conseqüências desta opressão contra o bom humor é que o namoro acaba morrendo na monotonia, já que a única coisa que resta de comum são os beijinhos e amassos abraços. Que até satisfazem o homem sem graça por um tempo, mas deixa a mulher bem humorada saturada pela censura.

Eu gosto do meu senso de humor. Acho que é uma virtude e uma defesa pra enfrentar essa vida louca. Não acho, sinceramente, que seja uma qualidade que deva passar sem ser notada, apesar de ter quase certeza que pros homens é uma coisa acessória. Se a mulher vier com senso de humor, bacana, se não, ninguém se importa. Quer dizer: eu me importo. Com o meu senso de humor e com o senso de humor do meu parceiro. Porque não dá pra compartilhar intimidade com quem não consegue achar graça da vida.

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Poesia concreta e colorida

Se preciso de um pouco de cor
É pra amortecer o que eu já sei de cor
Mas que o coração não tem coragem de dizer.

É o medo que dá que os dias cinzas
Não encontrem mais beleza no preto e branco.

NOVA (?) ESTRATÉGIA DE ENFRENTAMENTO DA ANSIEDADE:


Minha velha amiga Ansiedade,

Em nome da convivência de tantos anos, venho por meio desta lhe fazer um pedido e espero que seja atendida. Você bem sabe que tem sido a companheira de uma vida inteira, estando presente nos momentos mais importantes e porque não dizer, tensos da minha curta história. Você esteve por perto, vigiando e controlando cada detalhe dos grandes acontecimentos da minha biografia como meu primeiro dia na escola, meu primeiro beijo, minha primeira paixão, minha primeira desilusão, a primeira vez em que tive pavor de ser aniquilada e não poder mais me recuperar, no dia do vestibular, no primeiro dia de aula na universidade, quando fui contratada no primeiro estágio e no primeiro emprego, nos momentos de coragem e de covardia, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença e assim estará até que a morte nos separe. A propósito, é sobre o nosso relacionamento que gostaria de falar. Nem seria com a finalidade de discutir a relação. Como falei, é mais para fazer um pedido. Na verdade, é mais pra impor uma condição.

Eu não quero que você pense que isso é um gesto de desconsideração. Não é. Reconheço a porção positiva de sua presença cotidiana. Mas pra ser sincera, eu preciso que agora você me motive pra algo impulsivo, que gere mudanças significativas na minha vida, porque eu não sou mais a mesma. Você bem sabe disso. Você e seu amigo Saturno sabem muito bem do que eu estou falando. Portanto, se você quiser continuar ao meu lado vai ter que se enquadrar nestas mudanças. Vai ter que funcionar na minha vida de uma forma mais produtiva. Agora é a hora de você provar sua lealdade e companheirismo. Eu não posso mais ser como antes e você não pode me abandonar porque faz parte da minha constituição, logo, não lhe resta alternativa. 

Como pode ver você não me impõe mais medo, porque eu já entendi a sua função na minha existência. Aquelas conversas mentais que tenho comigo mesma pra organizar a bagunça que você provoca dentro de mim têm me sido bastante úteis. Por isso eu preciso que você seja o dispositivo que poderia me levar à intempestividade necessária pra sair do lugar de acomodação que por agora me encontro, pra assumir uma postura mais funcional. Até mesmo porque se eu estou orientada a reconhecer e assumir minha condição de adultescente, você também vai ser obrigada a amadurecer junto comigo. É uma questão de lógica, mas não é uma questão de escolha. Não sua.

Perdoe se estou sendo rígida. Mas eu preciso ser. Pelo menos com você eu preciso ter mais firmeza pra que você não me domine mais. Agora sou eu que domino você e pode ter certeza que as coisas vão ser melhores assim. Agora é hora de unir minha cautela com sua impulsividade, meu senso estratégico com sua vigília, para assim nos tornarmos uma dupla invencível. É uma negociação justa e é um pedido simples até. Está na hora de mudar e não há mais como voltar atrás. Sem arrependimentos. Agora é a hora!

Um beijo, gata!

quinta-feira, outubro 20, 2011

Se assim fosse seria lindo.


Se eu conseguisse mostrar pra você tudo o que realmente sou e tudo mais que ainda posso ser você se surpreenderia e se ressentiria por ter perdido tanto tempo.

Se eu conseguisse sair dessa casca que impõe a mim limites tão sofridos e oferecesse a você todo o amor que eu sei sentir você jamais me largaria. Sequer pensaria.

Se você soubesse da minha lealdade, do meu senso de humor, da minha dedicação e disponibilidade para compreender qualquer atitude você não desperdiçaria mais um minuto desse precioso tempo que insiste em nos manter separados.

Se eu conseguisse e você aceitasse, meu Deus, eu nem sei como seria.

terça-feira, outubro 18, 2011

Outra carta pra você!


Oi! Tudo bem? Quanto tempo! Eu sei, eu sei. Não precisa me lembrar. Graças a Deus, ou não, conheço e reconheço minhas escolhas e as péssimas consequências vindas delas. Talvez porque sejam mais não-escolhas. Pois é, minha inércia continua a mesma, mas eu percebo uma mudança se aproximando. Enfim: essa minha mania de te envolver no que não te diz respeito também não muda. Eu falei mesmo, da última vez, depois daquele último sonho que riscaria você da minha vida onírica e real. Deu certo por um tempo, mas como em todo vício, doença ou disfuncionalidade recaídas são previsíveis e eu não tive outra escolha que não fosse aceitar você de volta. De volta? Você sabe o que quero dizer. Falta de inteligência não é um mal que eu possa atribuir a você. Esta crise veio mais forte, talvez porque as mudanças que pressinto estejam causando grandes revoluções dentro de mim. Em que parte isso se torna comum a você? Não sei! O fato é que tenho sonhado contigo quase todo dia. Dias seguidos, às vezes. Fui eu que inventei você. Deveria caber a mim te desinventar. Mas é difícil pra todo criador se desfazer de sua criação. Agora eu não sei mais o que tentar. Qual a melhor prescrição pra esquecer alguém que não existe? Pior: qual o melhor curativo pra fechar a ferida narcísica de não existir pra alguém? Eu sei que a culpa é minha. Se você não reconhece a minha existência é porque eu faço questão de ser invisível aos seus olhos. Eu criei um roteiro muito complexo e um problema definitivamente sem solução: como termina a história de amor de uma pessoa invisível por outra pessoa inventada? Um dia me virá a coragem e um de nós dois se materializará. Alguém precisa existir em um plano concreto, afinal. Um dia eu me tornarei visível: resultado das minhas revoluções pessoais. Um dia você deixará de existir como o homem dos meus desejos de amor: resultado de um luto bem elaborado. Um dia nós entraremos em consenso e quem sabe aí eu ache a solução pra esse problema. Pra eu seguir em frente. Pra você seguir em frente sem precisar arrastar correntes como um fantasma em minha vida. Você é muito bonito pra viver só na minha cabeça. E eu gosto tanto de você que meu peito chega a doer de raiva e revolta. Mas não importa. Nada disso importa agora. No dia em que a coragem vier eu reúno todas as cartas, as palavras não-ditas e esfrego na sua cara. No dia em que a coragem vier eu reúno todas as cartas, as palavras não ditas e rio da minha cara por ser tão infantil e covarde. Aí eu perceberei que talvez eu nem precise fazer isso. Porque como em todo vício, doença ou disfuncionalidade recaídas são previsíveis, mas controláveis e com sorte até extintas. E aí eu não terei outra escolha que não seja partir pra próxima história.
Até a próxima, meu bem.

Quem inventou você fui eu, porém, eu tenho que desinventar: pro bem [...] Voltei pra te ver, mas sem te inventar. Ressaber se vai passar.
Gram

quinta-feira, outubro 06, 2011

Sobre estar faminto e insatisfeito

 
Stay hungry, stay foolish (STEVE JOBS, 2005).

Eu queria viver de criatividade. Porque acho que são os criativos (sempre) que movem o mundo. Eu poderia ajudar as pessoas com a criatividade que vem sendo talhada no percurso da minha história de vida. No meu ofício atual eu uso minha criatividade como posso, dentro dos limites humanos e organizacionais. Com isso eu também ajudo as pessoas. Mas não é mais suficiente.
Ontem, eu conheci uma pessoa que se foi e que está a anos luz de distância da minha vida. Até ontem eu não sabia nada de sua história. Eu não sabia escrever nem seu nome. Como todo mundo que é afeito à criatividade, fui movida pela curiosidade. Ao pesquisar sobre a vida de Steve Jobs senti um grande pesar com sua perda. Repito. Eu não o conhecia. Só sabia o que minha irmã, bacharel em computação, falava aqui e acolá e que muitas vezes eu nem ouvia direito. Mas quando eu percebi o tamanho da pessoa e da genialidade dele, eu me entristeci.
Eu não sei se esse pesar é fruto da minha TPM que não deixa barato nunca, ou se é uma repercussão das minhas próprias angústias profissionais e pessoais. Na minha pesquisa, eu assisti a um vídeo icônico sobre seu discurso em uma formatura na Universidade de Standford. Eu fiquei comovida com as palavras do desconhecido Steve Jobs. Por alguma razão, (que consciente ou inconscientemente eu sei qual é) aquelas palavras me tocaram. Mexeram com as minhas insatisfações. Eu tive vontade de chorar e de escrever. Porque ele me lembrou que eu gosto mesmo é de mexer com a criatividade e com a arte.
Eu planejo, um dia, ter tempo e saúde pra viver a minha arte. Eu penso em fazer um curso de designer de moda. Eu penso em fazer um curso de arquitetura. Eu penso em fazer um curso de gastronomia. Eu penso em fazer um curso de fotografia. Eu penso em voltar a desenhar e em fazer um curso de desenho pra me aperfeiçoar. Mas só quando me estabilizar profissionalmente. Só depois do mestrado, do doutorado, pós-doutorado e livre docência. Só depois de passar num concurso pra professor universitário. Só quando a idade me forçar a viver de hobbies. E eu nem tenho coragem de fazer os cálculos pra saber quanto tempo mais vou ter que esperar.
No discurso, Steve Jobs diz que precisamos fazer o que amamos, porque é isso que vai preencher a maior parte do tempo de nossas vidas. Que só podemos ligar os pontos do passado e confiar que alguns pontos, no futuro, serão ligados de alguma forma e saberemos a resposta. Isso é otimismo. Isso é fé. E isso me fez (re)pensar os meus planos.
Eu preciso com urgência fazer o que amo. Eu não sei mais se amo mesmo o que faço. Essa dúvida vem me adoecendo de culpa e insatisfação há um ano e meio, sendo que eu estou formada há apenas dois anos. É cedo? Quem sabe? Talvez não se eu disser que me sinto como uma pessoa de 180 anos. Dois anos é nada. 
Eu me ressinto da vida adulta. Da rotina burocrática de seguir uma carga horária estipulada pra custear meus sonhos, projetos e necessidades básicas no fim do mês. Eu me ressinto de ter que seguir uma rotina imposta. Eu me ressinto de ter que acumular títulos pra competir no mercado de trabalho. Eu me ressinto principalmente porque muitas vezes eu me vejo na obrigação de acumular títulos apenas pra este intuito e não porque haja amor nas minhas produções científicas. Eu me ressinto de ter que enfiar feitos relevantes da minha vida acadêmica no Currículo Lattes. Eu me ressinto de que nesse caminho o amor por minha profissão esteja cada vez mais embotado e passe a me render mais dissabores que prazer.
Se eu vivesse de arte, provavelmente não conseguiria pagar minhas contas. Provavelmente sentiria culpa em abandonar uma vida acadêmica promissora. Provavelmente duvidaria da escolha de deixar uma vida de tantos investimentos pra trás. Por outro lado eu me sentiria mais feliz. Mais livre. Mais saudável. Teria mais tempo pra minha família, pra meus amigos: os que estão perto e os que estão longe, pra meu afilhado e pros filhos que terei. Mas são os filhos que terei que me lembram que eu preciso sustentá-los através da minha vida burocrática. Provavelmente deixaria produtos mais proveitosos e cheios de amor do que artigos científicos. Provavelmente problematizaria mais, solucionaria mais problemas e talvez nem precisasse de terapeuta pra segurar minhas inseguranças e minhas feridas narcísicas.
Quando digo que queria  ter nascido rica não é pra permanecer na acomodação. É pra viver da arte que sei e da arte que pretendo aprender a fazer. Porque se a criatividade movimenta o mundo, nos movimenta também. Nos faz sair do lugar. Mas sem dinheiro pra bancar a vida que a gente é obrigado a levar a arte se torna uma preocupação. E isso é chave de todo o adoecimento pelo qual tenho passado. Eu estou num impasse. Talvez não seja possível carregar dois pesos ao mesmo tempo. Talvez a minha escolha se enquadre apenas no que é aconselhável. Talvez por isso eu tenha essa sensação de não pertencimento a essa vida adulta protocolada.
Steve Jobs sem saber, sem que eu soubesse, mexeu na minha ferida. Abriu o curativo que eu preservo com esforço hercúleo e por um segundo me fez acordar com a dor. Steve Jobs me fez ter vontade de escrever sobre ele e sobre mim. Eu não precisaria saber de toda sua vida a minha vida inteira. Eu só precisei do dispositivo da curiosidade e de 14 minutos de um vídeo que eu nem teria interesse em ver se ele estivesse vivo. Minha admiração não é mais pelas invenções que ele deixou. Não é mais pela revolução que ele causou no mundo. Não é mais por sua genialidade. Porque até ontem eu nem me dava conta disso. É pela sabedoria que eu vi em suas palavras naqueles 14 minutos de fala que poderiam ainda ser desconhecidos pra mim. É pelo movimento que provocou em mim. Quando ele disse “permaneça faminto, permaneça ignorante” ele me impulsionou a pensar a minha vida, com a ajuda da TPM ou não e me impulsionou a escrever, a usar a arte que eu sei fazer e que promove amor em mim. É por isso.